top of page

O espetáculo vai começar!

Começar um texto na negativa não é uma boa maneira de se iniciar, mas que a verdade seja dita: não se sabe, ao certo, a data que surgiu o circo. Desde a Antiguidade há registros que simbolizam atividades circenses, como práticas de domesticação de animais selvagens. Na região que hoje se estende do Egito à China, exercícios que envolvem malabarismo e acrobacia eram comumente praticados em rituais de religião.

Foi na Idade Média que as artes circenses se tornaram mais comum e deram forma ao que conhecemos como circo atualmente. É nessa época que artistas perambulavam de cidade em cidade, ou melhor, de feudo em feudo, para alegrar as pessoas que ali se encontravam.

“O circo viria realmente a reunir, primeiro em redondéis a céu aberto, depois ao abrigo de suas lonas, todos os jogos de habilidades acrobáticas e histriônicas surgidas pelas ruas e feiras ao longo da Idade Média”, escreveu o pesquisador José Ramos Tinhorão em seu livro Circo Brasileiro, local do universal.

O circo moderno, conhecido por seu formato de pista arredondada, surgiu na Europa, mais precisamente na Inglaterra, no ano de 1779. Essa forma de espetáculo foi arquitetada por Philip Astley, um ex integrante da cavalaria real inglesa, com o objetivo de fazer apresentações estupendas com cavalos. O formato circular da pista de 13 metros de diâmetro dava maior equilíbrio para que os s calvagadores fizessem suas estrepulias.

 

Com a finalidade de chamar mais público, Astley fez uma parceria com artistas saltimbancos para se apresentarem em seu anfiteatro. Os saltimbancos eram artistas que, literalmente, saltavam nos bancos das praças e reuniam pessoas em volta para assisti-los.

Alguns anos depois, na França, um cavaleiro e um poeta, Charles Hughes e Charles Dibdin, fundaram o famoso anfiteatro chamado de Royal Circus (Circo Real em tradução livre). A partir daí, o circo se torna um dos maiores espetáculos de artes jamais visto, encantando homens, mulheres, crianças e idosos.

 

O circo em terras brasileiras

Junto de algumas famílias tradicionais de circo da Europa, chegaram os primeiros artistas circenses no começo do século XIX no Brasil. Instalados em terras tupiniquins, esses artistas saltimbancos agregavam em seus espetáculos características regionais, fazendo do picadeiro uma arte com traços culturais brasileiros.

Os circos itinerantes de lona foram intitulados de “Circo de Cavalinhos”. Segundo Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo de São Paulo, essa era “uma das expressões mais poéticas e precisas da língua portuguesa brasileira e que atesta a importância do cavalo no espetáculo circense de então”.

Nas regiões centrais da capital paulista, os “Circo de Cavalinhos” se instalavam, em épocas sazonais, nos terrenos vazios. O Largo do Paissandu, por exemplo, tem grande importância histórica para os artistas circenses por ser o “palco” de grandes picadeiros de lona itinerantes, especialmente nos anos de 1920.

O Largo do Paissandu, que está localizado na cidade de São Paulo, mais precisamente na Avenida São João em frente à Galeria do Rock, é um ponto de referência dos artistas circenses. No século XX, essa região foi sede do "Café dos Artistas", assim denominado o ponto de encontro de artistas circenses, que já chegou a reunir aproximadamente 600 pessoas. Sem a ajudinha da tecnologia, às segundas- feiras, o dia de folga da categoria decretado pelo presidente Getúlio Vargas, artistas e donos de circo se encontravam para fechar contratos e contarem histórias que aconteciam debaixo da lona. Além, claro, de ser uma oportunidade de reencontrar amigos e parentes distantes.

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje em dia, próximo ao Largo do Paissandu, encontram-se dois lugares importantíssimos para a preservação da mágica história do circo: o Centro de Memória do Circo, na Galeria Olido e o Palacete dos Artistas. Este último foi construído na década de 1910 e, a partir de 2012, faz parte do Programa Renova Centro da prefeitura de São Paulo, sob gestão do prefeito petista Fernando Haddad. O prédio foi reformado e os seus 50 apartamentos foram distribuídos aos grandes nomes de artistas da cidade, dentre eles a circense Laudi Militello.

Durante todos os anos de história do circo no Brasil, essa arte tão singular influenciou diversas atrações no rádio, na literatura, na música e até na TV. Um dos programas mais conhecidos e repercutidos nacionalmente é o do palhaço Bozo. Veiculado na década de 1980 no canal do SBT, o palhaço Bozo, no entanto, não era uma criação genuinamente brasileira. O personagem é resultado de uma obra do estadunidense Alan Livingston.

Mais recentemente, a vida nômade dos artistas circenses serviu de inspiração para uma obra cinematográfica: o filme O Palhaço. Escrito, dirigido e interpretado por Selton Mello, o filme, lançado em 2011, retrata as alegrias e as dificuldades que os artistas de circo enfrentam. “Cada um deve fazer o que sabe fazer. O gato bebe leite, o rato come queijo e eu... Sou palhaço" - Frase do filme “O Palhaço”.

 

Escolas de Circo no Brasil

Ser artista de circo era um grande privilégio de crianças que nasciam em famílias tradicionais circenses ou daqueles que criavam coragem e “fugiam” com os picadeiros Brasil afora. Esses artistas tinham em suas mãos o dever de dar continuidade aos saberes do circo.

“Aprender a dar um salto mortal, por exemplo, muitas pessoas aprendiam, não precisavam de circo para isso. Mas saber “empatar uma corda ou um cabo de aço”, confeccionar um ‘pano’, ‘preparar uma praça’, ser mecânico, eletricista, pintor, construir seu próprio aparelho, armar, desarmar, isto tudo é que diferenciava um artista circense de outros artistas”, descreve a historiadora Erminia Silva.

 

A partir da década de 1950 aconteceram transformações intensas dentro do picadeiro de estrutura familiar. A transmissão do saber circense entre gerações sofreu mudanças quando, nessa época, a educação das crianças em escolas comuns se tornou mais comum. “A valoração social passava a não ser mais a aprendizagem dada no próprio circo por seus próprios membros; ela estava voltada para a aprendizagem oferecida nos bancos escolares ‘formais’”, relata Erminia.
 

Em 1978, no Brasil, a primeira escola de circo foi inaugurada em São Paulo, a Academia Piolin de Artes Circenses. Essa iniciativa representou uma fissura no modelo de perpetuação da tradição do picadeiro. A criação da escola foi uma proposta da Associação Piolin de Artes Circenses com o apoio da Secretaria do Estado da Cultura, por meio da Comissão de Circo. Em 1983 a Academia Piolin de Artes Circenses encerrou as atividades por falta de apoio financeiro e de suporte dos órgãos governamentais.

 

Além da Academia em São Paulo, foi inaugurada em 1982, no Rio de Janeiro, a Escola Nacional de Circo, com o mesmo objetivo e interesse da categoria de preservar essa arte milenar no país. A Escola Nacional de Circo está viva até hoje e possui 200 alunos matriculados, de acordo com a Funarte.

 

Segundo a Coordenadora do Centro de Memória, Verônica Tamaoki, a criação de escolas de circo “possibilitou um número maior de praticantes, além de praticantes de outras áreas da educação, não só os que nasceram ou que engajaram no circo”. Ou seja, formaram os primeiros artistas circenses que não vieram de famílias tradicionais de circo.

 

Tanto na Academia Piolin de Artes Circenses, como na Escola Nacional de Circo, foi escalado um time de mestres vindos de famílias tradicionais que tinham interesse em passar todo o conhecimento que aprenderam durante anos com os familiares. Formando assim, professores e alunos interessados em aprender e continuar com a arte circense no país.


 

 

Linha do tempo

1831 - Na cidade de Sorocaba apresenta-se, pela primeira vez, o Circo Prudêncio da Silva

1837 - No Circo Olímpico, na cidade do Rio de Janeiro, foi realizada a primeira apresentação com a presença de um elefante

1859 - O trapézio voador, grande atração dos circos, foi inventado pelo ginasta Jules Leotard no Circo Napoleão, na França 

1897 - Nasce na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Abelardo Pinto, o famoso palhaço Piolin 

1904 - O Globo da Morte* é criado e apresentado nos Estados Unidos pela primeira vez 

1915 - No dia 18 de julho nasce na cidade de Rio Bonito - Rio de Janeiro, George Savalla Gomes, o notório palhaço Carequinha

1925 - A primeira Federação de artistas circenses é fundada Na cidade de São Paulo é fundada. Ao todo eram 831 sócios e 39 circos

1929 - Artistas modernistas prestam homenagem ao palhaço Piolin no dia do seu aniversário, dia 27 de março

1933 - O palhaço Piolin inaugura o circo com seu nome 

1934 - Fundação do Sindicato dos Trabalhadores

de Teatro, localizado dentro de um circo no Largo

do Paissandu

1961 - O circo do palhaço Piolin é despejado de

um terreno no qual ocupava desde o ano de 1949 

 

 

 

 

 

                                                       

 

                                                      1967 - Famosa canção O Circo, composição de Sydnei                                                                                          Miller e interpretação de Nara Leão, é lançada

1972 - Lina Bo bardi e Pietro Maria convidam Piolin para se apresentar em um circo instalado no vão do Masp. O marco foi em comemoração aos 50 anos da Semana de Arte Moderna

1978 - Fundação da primeira escola de circo do Brasil, nomeada de Academia Piolin de Artes Circenses 

1982 - Fundação da Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro 

1996 - O palhaço Tiririca fica famoso em todo Brasil pelo seu ritmo xaxado denominado Florentina

2005 - No Brasil e, também, no mundo a lei de proibição de animais em picadeiros se torna mais rigorosa

2009 - Inauguração do Centro de Memória do Circo na Galeria Olido, em frente ao Largo Paissandu, na cidade de São Paulo

* O Globo da Morte é uma espécie de uma jaula esférica feita de metal onde motociclistas realizam manobras radicais desafiando a lei da gravidade

“Cheguei em São Paulo numa tarde fria. Chovia muito. Fui logo pro ponto dos artistas de circo, um bar que tinha no Largo do Paissandu, bem no centrão – aliás, era o único lugar que eu sabia ir nessa grande cidade. Não tinha ninguém conhecido. Era muito cedo pro pessoal do circo dar o ar das suas graças. Me abriguei embaixo da marquise do bar; me encolhi o mais que pude. Fiquei escutando o relógio da igreja bater as horas. Nove. Dez. Onze horas. Meio-dia. Panela no fogo, barriga vazia.”

Plínio Marcos - O Truque dos Espelhos, 1999

"Primeiro veículo de massa do mundo moderno, o circo ambulante constituiu desde o seu surgimento na Inglaterra e na França, no século XVIII, a mais surpreendente summa de todas as artes dirigidas ao gosto popular da Antiguidade”

José Ramos Tinhorão

Acervo Centro de Memória do Circo

Circo do palhaço Piolin no vão do Masp em comemoração aos 50 anos da Semana de Arte Moderna

Acervo Centro de Memória do Circo

Café dos Artistas era o nome do ponto de encontro de artistas circenses na Avenida São João, em frente ao Largo do Paissandu

Acervo Centro de Memória do Circo

O Café dos Artistas já chegou a reunir aproximadamente 600 pessoas nas calçadas

Acervo Centro de Memória do Circo

Primeiro Globo da Morte dos Estados Unidos em 1904

Acervo Centro de Memória do Circo

Inauguração do Circo do Piolin em 1933

Acervo Centro de Memória do Circo

Academia Piolin de Artes Circenses, fundada em 1978 na cidade de São Paulo

Acervo Centro de Memória do Circo

Anfiteatro de Philip Astley

O CircoNara Leão
00:00
Acervo Centro de Memória do Circo
Acervo Centro de Memória do Circo

Abertura do programa

Bozo em 1991

Curiosidades Circenses

​Tradicionalmente, o circo tem uma cultura gastronômica muito forte. Antes dos espetáculos, durante os intervalos e após as apresentações era - e ainda é - comum a venda de alimentos para a plateia. Por isso é fácil reconhecer o circo pelo poder olfativo, já que ao chegar próximo de um picadeiro, sente-se o cheiro de algumas guloseimas muito populares, como o amendoim, a pipoca, a bala de coco, a maçã do amor, o churros, o cachorro quente, entre tantas outras. Além da comida, antigamente podia sentir o cheiro das serragens, vindo das jaulas dos animais que participavam dos espetáculos.

Foto: Ariádne Mussato

Antigamente era comum a venda de bala de coco nos picadeiros. Os circenses utilizavam embalagens coloridas e produzidas por eles mesmos, chamadas de “sombrinhas”, que tinham o formato de um circo de cabeça para baixo. A sombrinha, segundo Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo, “ao que tudo indica, era um conhecimento exclusivo do circo”.

A divulgação de um circo itinerante ao chegar em uma cidade foi se adaptando conforme o  público-alvo ao longo dos anos. Começou por boca a boca, passou pelo rádio, carros de sons, panfletos, cartazes, outdoors, pela internet, até chegar na divulgação por redes sociais. Mas algo que é bem característico da publicidade dos picadeiros é a chamada tabuleta de circo. Elas eram pintadas conforme o espetáculo do dia com tintas a base de água. As tabuletas eram apoiadas (e presas) em diversos postes pela cidade. Alguns circos ainda mantém a tabuleta, porém não é tão comum encontrar de tinta a

base de água.

© 2018. Todos os direitos reservados. Orgulhosamente criado por Wix.com

bottom of page